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W Series: A categoria, a temporada de 2022 e o futuro

Após uma longa pausa de nove semanas, a W Series volta à pista no GP de Singapura. Essa é a primeira vez na história que a categoria realiza uma etapa na Ásia, e a corrida deve coroar Jamie Chadwick campeã de 2022.


Apesar de novo, o campeonato já ajudou a colocar pilotas talentosas nos holofotes e garantiu oportunidades para jovens talentos que tendem a ser negligenciados por outras categorias de base. Mas, mesmo com uma história positiva, o futuro parece preocupante.


SOBRE A W SERIES

Lançada oficialmente em 2018, a W Series é uma categoria feminina de monoposto. Diferente de outras categorias de base, as pilotas não precisam pagar para conseguir uma vaga. Ao invés disso, as pilotas passam por um processo seletivo para garantir um lugar no grid.



São 18 pilotas titulares e cinco reservas. Além das selecionadas no processo, as oito primeiras colocadas e as duas titulares da equipe academia da categoria têm vaga garantida para a próxima temporada.


Isso garante a entrada constante de novos nomes e o desenvolvimento de pilotas que já estão ali e podem evoluir, além de permitir uma disputa baseada em talento e não em quem pode pagar mais.


Outro ponto importante são os carros. Os modelos são idênticos para todas as competidoras. O carro usado é o Tatuus F3 T-318, homologado pela FIA dentro das últimas especificações da F3.



A W Series acredita que colocar pilotas de alto nível nos holofotes ajuda a criar modelos para inspirar jovens meninas a entrar no kart. Isso é essencial para tornar real um dos principais objetivos da categoria: trazer mais mulheres para o automobilismo desde as raízes, baseado na ideia de que se você pode ver isso, pode ser isso.


Além do espaço para as atletas, a W Series garante a atuação de mulheres em todas as áreas da categoria. Desde Catherine Bond-Muir, fundadora e CEO, até mecânicas e engenheiras, as mulheres dominam todos os espaços ali dentro. A categoria também conta com a presença de Caitlyn Jenner, mulher trans chefe de equipe da Jenner Racing.


A primeira temporada da competição aconteceu em 2019, com seis etapas em circuitos europeus. Com o cancelamento das corridas de 2020 em decorrência da pandemia, a categoria voltou às pistas apenas em 2021, mas com uma grande novidade: assim como a F2 e F3, a W Series se tornou uma das categorias de apoio da Fórmula 1, com etapas disputadas nos mesmos circuitos da categoria principal.


Isso ajudou a elevar a popularidade do campeonato, que passou a contar com o sistema de equipes, aumentou o número de provas e conseguiu correr em outros continentes.


A TEMPORADA 2022

Sem muitas surpresas para quem acompanhou as outras temporadas, a bicampeã Jamie Chadwick dominou 2022. Com cinco vitórias em seis corridas, a britânica tem uma vantagem de 75 pontos para a segunda colocada, Alice Powell, e pode se tornar campeã com três corridas e duas etapas de antecedência.



Agora, as principais disputas são pelo segundo lugar e pelas vagas disponíveis no top 8, que garantem um lugar na temporada 2023. Assumindo o P2 e P3, Alice Powell e Beitske Visser contam com 68 pontos cada, seguidas de perto por Abbi Pulling, com 65. Apenas 16 pontos separam Belen Garcia, em quinto com 46 pontos, e Marta Garcia, em oitavo, com 30.


Entre o grid, apenas a tcheca Tereza Babickova não pontuou. Ela está fora de Singapura depois de se machucar em uma etapa da FRECA. A pilota será substituída por Ayla Green.


Além dos resultados dentro do campeonato, 2022 também ajudou a manter e incluir as pilotas em outras categorias.


Jamie Chadwick, atual campeã, renovou seu contrato como pilota da academia da Williams, parceria que acontece desde 2019. A britânica também conseguiu um teste na Indy Lights, categoria de acesso da Indycar. Jessica Hawkins continua com seu trabalho com a Aston Martin, na F1, e Alice Powell também se manteve como reserva da Envision, na Fórmula E.


Outra pilota que deu importantes passos esse ano foi Abbi Pulling. Ela estreou em 2021 como reserva e terminou a temporada em sétimo, com 40 pontos. Com os bons resultados, Abbi logo começou a chamar a atenção. Mentorada por Powell, ela entrou para o programa de desenvolvimento de jovens pilotos da Alpine e teve a oportunidade de guiar o Alpine A521 em um evento na Arábia Saudita.


Em setembro desse ano, Pulling participou de testes da F3 junto das pilotas Chloe Chambers e Nerea Marti, da W Series, e Hamda Al Qubaisi, competidora da Fórmula 4 e Fórmula Regional Europeia.


Apesar de pequenos, esses são passos importantes para garantir que a W Series exista como uma oportunidade de acesso a outras categorias, seja do caminho para a F1 ou fora desse meio, como Indy e FE.


O FUTURO

Mesmo com esses resultados positivos, o futuro da W Series não parece muito animador no momento.


Notícias recentes indicam risco de a categoria não conseguir terminar a temporada atual por problemas financeiros, o que compromete diretamente a possibilidade de temporadas futuras acontecerem.


Segundo o Telegraph, a categoria está com uma dívida alta. Em dezembro de 2021, o valor acumulado era de £ 7.5 milhões, cerca de R$ 44 mi, e seus credores ainda aguardam esse pagamento.


A CEO e fundadora Catherine Bond-Muir não confirmou os rumores, mas afirmou estar em busca de apoiadores. Mesmo sem essa confirmação, já é possível perceber uma redução considerável na equipe trabalhando no GP de Singapura.


E não para por aí.


Com esses problemas, existe o risco de Jamie Chadwick e as outras pilotas não receberem o prêmio em dinheiro ao final da temporada. A categoria paga um prêmio total de 1.5 milhão de dólares, sendo $ 500 mil para a campeã e o restante dividido entre as demais competidoras.


Sendo uma categoria independente e sem ligação com a FIA, a W Series cresceu muito nos últimos anos, com maior número de etapas, parceria com grandes marcas, como Puma, Heineken e Champanhe Ferrari, e também passou a distribuir pontos na superlicença.


Mas nem isso conseguiu atrair investidores suficientes para manter a categoria viva e crescendo.


Entre o público e a mídia, a principal crítica, e fator apontado como possível potencializador para esse afastamento de interessados, é o fato de a categoria não ter conseguido garantir vaga de titular em outra categoria para nenhuma das pilotas.


Essa conversa se acalorou quando Jamie Chadwick anunciou seu retorno para a W Series em 2022 por não ter conseguido vaga em outra categoria de acesso, mesmo com o valor ganho como campeã em dois anos e sendo parte da academia Williams.


É impossível afirmar com certeza se as coisas seriam diferentes caso o campeonato tivesse mantido a regra de não permitir o retorno da campeã, o que obrigaria Jamie a tentar outras possibilidades, como se manter na Extreme E, onde correu em 2021.


Mesmo assim, fato é: existe uma dominância clara, que distancia a bicampeã do restante do grid e deixa uma má impressão. Tanto para ela, por não conseguir avançar (por diversos fatores, como falta de apoio e patrocínio), quanto para a categoria e para as outras pilotas, ofuscadas por sua performance esmagadora.


Por ser uma categoria de base focada em mulheres, é difícil (e triste) ver a W Series correr o risco de colapsar tão cedo. Além das pilotas, outras profissionais podem perder seus empregos, com pouca ou nenhuma chance de encontrar uma oportunidade em outro lugar.


OPINIÃO

Como uma mulher que descobriu a categoria em 2020 e acompanha desde então, vejo como isso pode ser prejudicial ao campeonato e sempre fui crítica da permissão para o retorno da campeã no ano seguinte. Porém, penso que esse não é o único fator para afastar possíveis investidores que poderiam ajudar a amenizar os problemas financeiros.


Não é de hoje que existe uma falta de interesse nítido em apoiar mulheres no automobilismo. Não é à toa que estamos desde a década de 70 sem uma pilota largar em um GP de Fórmula 1.


Isso fica aparente na falta de patrocínio para pilotas talentosas, como a Jamie, na dificuldade para manter o apoio, como o que aconteceu com Tatiana Calderón na Indy, e como as portas que se abrem ainda não dão muito espaço, como a atuação da Alice Powell na Fórmula E, que ainda não conseguiu ser titular.


Por isso, apesar de entender e concordar com as críticas à categoria – que ainda tem muito a melhorar –, vejo certa injustiça em jogar a culpa na dominância de Jamie, na dificuldade da W Series em promover as pilotas ou nos erros de um campeonato que ainda é muito recente.


Pessoalmente, penso que é preciso questionar o sistema como um todo, que não estende a mão para ajudar, nem facilita a atuação da categoria e das mulheres trabalhando ali. Tanto em questão organizacional, quanto financeira, devemos olhar o quadro geral e questionar por que não há interesse em investir para tentar manter a existência da competição.


Por fim, nos resta aguardar e torcer para a W Series resolver (ou amenizar) os problemas financeiros, continuar a existir por mais um ano e, quem sabe, conseguir continuar dando pequenos passos para realizar os grandes feitos almejados por todes ali.



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